Sobre-tudo, minha mãe.
Sexta feira, oito da noite.

Sento na varanda de casa e me vejo a contemplar o nada.
Não sei se o degrau da porta pode ser chamado de varanda, mas é a imagem mais próxima disso a que posso fazer uma alusão.
Pensar em decisões a serem tomadas, calcular atitudes e riscos. Bom nessas horas conversar com amigos confiáveis, ou no mínimo sensatos.
Apesar da segurança que demonstro não sei se estou preparada para essas fortes tempestades.
Se é que são tempestades.
De qualquer forma, há muito que se dizer quando agradecer a companhia é pouco!

(...)

Sábado, oito da noite.

Mesma hora, dias e lugares diferentes.
A caminho da casa da minha avó, tivemos uma conversa franca e emocionada, eu e minha mãe.
Entre queixas e lamentos, percebo que algo não vai nada bem, e que isso vai além da saúde física.
Olhando fundo nos olhos dela, compreendo minha herança depreciativa.
É fácil dizer a alguém que é preciso amar-se acima de tudo, difícil é saber fazer isso quando somamos insatisfações e decepções durante toda uma vida, quando abrimos mão de nós mesmos o tempo todo, quando somos educadas para “o servir”.
Grande parte das auguras femininas são causadas por uma passionalidade e tendência ao drama,
ao sofrimento; as quais busco insistentemente abandonar, embora cravadas de maneira tão intrínseca e profunda, o que torna essas histórias de “amor próprio”, “colocar-se em primeiro lugar” e “parar de se auto - sabotar”, que encontramos nos livros de auto-ajuda uma grande falácia.
Será que em todas as mentes há um momento no qual se deseja deixar de ser o que é?
Quem não pensou em morrer, deixar de viver, dormir e não acordar nunca mais, pelo menos uma vez na vida?
Quem sou eu para julgar meus pais?
No auge das emoções, ela diz que é infeliz, que se sente fracassada, não quer cuidar da saúde, e que enxerga a morte como um rompimento total com o sofrimento.
Já ouvi isso de outras vozes antes, mas não esperava ouvir de minha mãe.
(...)
Aos poucos diluo as palavras da conversa nos goles de café que sorvo, nesta segunda feira chuvosa, após uma madrugada praticamente insone e as roupas úmidas secando no corpo durante o dia de trabalho.
(...)
Não posso concordar com ela.
Não posso porque é difícil ouvir de alguém que amo incondicionalmente, seu desgosto pela vida.¹
Como poderia eu demovê-la desses pensamentos tão obscuros?
(...)
E a dúvida permanece...
Um rio de chuva inteiro cai sobre Jaraguá do Sul, meu coração preso a Curitiba mais uma vez, e minhas decisões confusas se estendem para aquém do ficar ou ir.
Com os olhos marejados retomo o trabalho, preciso repor horas, me dedicar incansavelmente, dar conta de todas as atribuições que me foram dadas, ir ao médico, fazer nova carteira de identidade, pagar contas, dar andamento aos projetos paralelos (que até o momento estão mais que empacados, mesmo sabendo eu que grande parte das ditas "decisões futuras" dependerão deles...) e finalmente abdicar de pequenos prazeres, em nome não somente de mim mesma, mas de algumas escolhas.

(...)
Disse a ela somente o que poderiam minhas pífias palavras, tão repetidas e gastas como notas de dois.
Quem sou eu para julgá-la, quem sou eu para pedir que se ame, que se cuide, se não por ela então por mim, que beirando meus 30 anos ainda preciso de um porto seguro para ancorar. Como não ser apelativa e dramática diante de uma situação na qual me falta o chão?
(...)
Como lutar por um lugar ao sol em dias tão chuvosos?
É preciso decidir agora e direcionar as ações futuras.
E para isso, somente saber o que fazer não é o suficiente.




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¹ Hoje me sinto a “pior filha do mundo”.
Talvez o mesmo sentimento que ela tenha tido quando confessei que na adolescência tentei suicídio tomando medicamentos, após uma séria discussão familiar.
Por sorte eram medicamentos leves que me causaram apenas uma intoxicação, tanto que na ocasião, ninguém desconfiou da ingestão abusiva e irresponsável da “aborrescente” de 12 anos.
Atribuíram meu estado ao excesso de costela gordurosa, nociva ao estômago fraco; somente 15 anos depois é que ela soube do feito, e disse sentir-se a “pior mãe do mundo”.
Minha mãe é uma pessoa fora de série e em um mundo inteiro não poderia haver outra melhor.
Hoje, segunda feira ao meio dia, falo de todo o coração sem ser piegas, que talvez com todas as minhas imperfeições e defeitos eu não mereça uma mãe tão maravilhosa quanto ela.