Lembranças, meu pai e outras coisas.
Falar sobre ele é sempre uma maneira de me comover.
Pela admiração, pela dor, pela saudade, pelo amor incondicional, pelo respeito e pelas coisas que aprendi.
Eu sempre digo que apesar dos defeitos que temos, precisamos saber amar as pessoas de maneira atemporal e procurar não julgar. Não que eu consiga fazer isso severamente,apenas tento.
E muitas e muitas vezes, honestamente, não consigo...
Já houve um tempo em que eu tinha medo, evitava o confronto, a conversa amiga e qualquer aproximação, fosse ela passiva ou não. Sei que ofendi por não compreender, sei que falhei e ainda falho muitas vezes,e queria de verdade cumprir meu papel de filha com maestria... ainda que muitas vezes eu não consiga, e que minhas tentativas sejam insuficientes.
Hoje, eu vejo meu pai e sinto como se olhasse no fundo de um espelho.
O mesmo olhar, o mesmo formato dos olhos, a boca grossa, os dentes grandes um pouco proeminentes. Temos ainda o mesmo formato das mãos, dos dedos e das unhas, e sempre acabamos discursando quando queremos expressar uma opinião.
Ele mais, eu menos, mas possuímos ainda assim um vociferar eloqüente, uma dor pungente, um desejo insaciável de mudar a realidade ao nosso redor. E ainda que cometamos injustiças com nossos próximos mais próximos, e conosco mesmo, somos capazes de abrir mão de nosso tempo em prol de causas quase perdidas, em prol de esperanças políticas e sociais, em prol daquilo que acreditamos com veemência.
Lembro com vontade de rir e chorar ao mesmo tempo de quando ganhamos nosso primeiro computador e mais tarde quando comprei um novo, mais potente e mais moderno. Meu pai como quase todas as pessoas da idade dele tem dificuldade com essa linguagem, e na época eu não tinha paciência.
Não tinha paciência para explicar, nem para sentar e tentar compreender e nem para amar, o que é pior eu acho.
Hoje, depois de alguns anos que saí de casa, morando em outra cidade, não muito distante, meu pai ainda me liga, altas horas da noite pedindo dicas e explicações.
E hoje eu tenho toda a paciência do mundo, atenderia quantas vezes fosse necessário.
Porque meu pai é único.
E seu amor por esta prendinha que hoje beira os 30, meio capenga... é incomensurável.
Lembro também com dor dilacerante o evento do teclado...
Certa vez, eu devia ter meus 11, 12 anos, tivemos uma briga feia, pela qual eu nunca tive a humildade de pedir desculpas.
Meu pai tocava e ainda toca, alguns instrumentos com muita facilidade. Aprendeu sozinho e um pouco com os outros, e eu lembro com carinho de ele tocar as músicas regionalistas para eu cantar. “... uma chamarra, uma fogueira, uma chinoca e uma chaleira...” - difícil não lembrar.
Naquela época eu estudava piano, havia um ano mais ou menos. Tínhamos um teclado pequeno em casa, de 4 ou 6 oitavas, e a professora lecionava em domicílio.
Não lembro quanto custava, mas que era suado pagar, eram tempos difíceis, de vacas magras mesmo, e aí resolvemos em família, deixar o piano para depois.
Meu pai sempre me cobrou muito que eu estudasse que tirasse novas músicas, mas por mais que eu me dedicasse, nunca tive essa “musicalidade” aflorada. Tinha facilidade, afinação, mas não possuía essa sensibilidade nata que ele tinha...
Confesso que muitas vezes tive inveja, queria muito ser assim: tocar vários instrumentos, ter uma banda, subir num palco sem sentir as pernas tremerem como sempre acontecia.
E nessas idas e vindas de cobranças e pequenas pressões diárias, um dia estouramos em uma briga sem muitos precedentes e eu disse não querer mais tocar.

- Odeio piano, tenho nojo desse teclado e faça o que você quiser com ele.

Foram essas as minhas revoltadas palavras, espumando colérica numa reação inesperada... Falar que tinha nojo do teclado, algo que ele comprou com sacrifício para mim, doeu, como dizer que tinha nojo dele e hoje imagino o quão fundo isso não calou.
Dias depois meu pai vendeu o teclado a um primo e eu contive o choro enquanto ele era levado embora. A casa ficou mais silenciosa, meus métodos e partituras não tinham mais sentido ali, e angustiada guardei tudo em um saco plástico lacrado.
Jurei que nunca mais encostaria em um piano.

- Quantas juras a gente quebra durante a vida? Quantas promessas a gente não cumpre mesmo? E quantas falácias a gente não repete tentando se convencer que está certo? -

Anos mais tarde, entrei para o coral da faculdade, e para aprender as músicas arranhava algumas notas no piano da salinha destinada aos ensaios.
Nessa época, participei de um recital e solei “Roda Viva”, do Chico Buarque no auditório lotado... senti calor, frio, medo.
Meu pai estava na platéia, ouvindo orgulhoso a performance desengonçada da filha, tentando se equilibrar num salto alto de pouco uso, e numa roupa social desconfortável...
Ele sempre soube que eu não me entendo muito bem com formalidades nem com sapatos de salto.
E ele tanto sabe sobre mim, mesmo que eu nem tudo revele, que no auge do seu jeitão durão, foi passível de uma das atitudes mais doces e belas que já vi.
Minha mãe contou que ele guardou dinheiro por meses e meses para me presentear com uma agenda bíblica, no final do ano de 2007. Era o ano em que saí de casa, e ele mesmo inconscientemente sabia o quanto eu precisaria de diretrizes, num momento em que me via sozinha num local diferente, com pouquíssimos amigos e quase ninguém em quem confiar.
A solidão era (e de certa forma ainda é) minha mais fiel companheira.

... Ainda guardo a capa da agenda e o miolo pouco usado sem coragem de jogar fora...
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Por isso hoje, querido pai, na sua data de aniversário, venho te pedir um perdão emocionado, te desejar muitos anos de vida, e dizer que me sinto livre de todas as mágoas guardadas de ti, que pai e filha são um laço eterno e deve ser repleto de boas recordações, não de máculas.
Com carinho, um beijo grande ao meu gaúcho preferido.
1 Response
  1. Thiago Says:

    Sensacional.... emocionante... li como um pai desajeitado que sou. Impressionante como a gente tem mania de cobrar as coisas mais absurdas... Enfim... Ninguém ensina a gente a amar e a criar pessoas dignas...