Comparo a vida a uma ampulheta gigantesca, a areia que vai caindo na parte inferior é o conjunto do passado, enquanto a que fica na parte superior, é o futuro.
A medida que o tempo passa, embora tenhamos a sensação de que ela cai cada vez mais veloz, a velocidade da queda é sempre uma constante, o que muda na verdade é a nossa relação com o tempo.
Nesta última visita a casa dos meus pais, senti algo estranho...
Abracei minha mãe com uma saudade nova, repicada de um pesar desconhecido até então.
Acho que meu coração além de burro, anda meio mole ultimamente...
A noite, enquanto espero o sono chegar, fico repensando muitas coisas, dentre elas, atentei para o fato de que alguns amigos, mais ou menos na mesma faixa etária que a minha, já perderam seus pais.
Nesse ínterim, ouvindo suas histórias, cheguei a uma conclusão unânime: A perda é uma ferida que nunca cicatriza, e embora tenhamos a morte como algo certo, o fato é que ninguém esta preparado para ela.
Depois daquele fim de semana, um pensamento recorrente toma conta de meus devaneios cotidianos e fazem brotar lágrimas dos meus olhos. Muitas vezes me peguei imaginando como seria minha vida sem meus pais.
Um dia, inevitavelmente, eu terei que entender que minha mãe não estará mais a um telefonema de distância, e que eu não vou poder mais reclamar seu colo quando precisar.
Colo de mãe é remédio para muitas coisas, até mesmo para aquelas que a gente sente e não quer falar.
Vai chegar um dia em que eu não vou mais poder trocar emails de piadas políticas com meu pai, porque ele não estará mais ali para responder. A caixa de entrada vai ficar lotada e as mensagens enviadas ficarão perdidas em um espaço virtual sem resposta.
Eu sei que os pais erram e acertam, assim como eu.
E hoje eu me arrependo de cada grosseria, impaciência e falta de respeito que tive com relação a eles.
Muitas vezes guardei pequenas mágoas, revidei provocações e não tive maturidade suficiente para compreender que se meu pai errou ou pecou, ele apenas repassou de maneira melhorada, o amor que ele recebeu e aprendeu.
E esse laço eterno não há falecimento ou distância que apague.
Dada a obviedade das conclusões, penso no enorme abismo que logo se formará a minha frente quando eu procurar e não encontrar mais em seu olhar perdido a ponta do orgulho de paterno, que tantas vezes me fez feliz.
Neste instante, sinto meu peito partido em milhares de pedaços, encolhido e absorto em meio a uma solidão iminente quando racionalizo essas emoções e vejo que a ampulheta da vida acumula muito mais areia na parte de baixo.
Mesmo que meus pais ainda tenham uma saúde razoável, sei que a linha imaginária do tempo vai se esticando e se tornando mais fina e frágil a cada minuto que passa.
Não sei por que, mas senti uma necessidade profunda de expor o que me incomodava renitente, como um escárnio, dilacerando uma carga emocional que pela primeira vez me fez perceber que definitivamente eles não são eternos.
_________________________________________________________________
Com carinho, para os amigos: Tatiana, Eliane e Osiris; a meus pais, responsáveis por grande parte do que sou hoje e a meu irmão, que ainda não acordou ou não percebeu que a vida é efêmera e que em breve não haverá nem mais um pedaço de tempo para recuperar.
Quem estuda mais a fundo psicologia diz que é um momento muito forte na vida de qualquer pessoa quando ela sonha que a mãe morreu. A mãe morrer no sonho da gente além de ser algo pertubador, é o fato que crescemos, que amadurecemos, que no meu caso, me tornei mulher.
Já fazem alguns anos que sonhei com isso, e esse "sonho" é tão real pra mim até hoje. Lembro de cada detalhe. E a única coisa que me confortava era o fato de que minha avó já tinha falecido e em meu sonho ela ainda estava viva... Senão passaria dias a fio achando que eram cenas dos próximos capítulos...
No dito pesadelo eu já era mãe de dois meninos, estava casada e tinha uma casa bacana...
Quanto mais minha realidade se aproxima disso tudo, mais medo eu tenho de perder meu porto seguro.
E sei qeu só quando passar por isso vou poder dizer que entendo quem já passou por isso...
Excelente post!
Eu só posso dizer que você é uma privilegiada. Não só por ainda ter seus pais contigo. Mas por ter percebido, ainda em tempo, coisas que algumas pessoas só percebem quando já não dá mais tempo. Portanto, não chore. Só se for de alegria, de emoção. E aproveita a areia que ainda resta na ampulheta pra fazer o que há de melhor. Não dá pra mudar o pedaço maior cheio de areia. Mas enquanto a gente se lamenta por isso, a parte de cima fica menor ainda... Sempre é tempo. O tempo é precioso, como o seu post mesmo disse. Longe de mim dar conselhos, não tô aqui pra isso. Mas já que não há tanto tempo pra desperdiçar pensando ou sofrendo ou insistindo no que é ruim, será então que não é preferível mesmo mudarmos tudo o que há na gente e a nossa volta e transformarmos tudo o que pudermos no melhor? Eu me pergunto isso todos os dias. Obrigada pela dedicatória :)