Em meio a minhas anotações mentais, reunindo informações coletadas aqui e ali, concluo (
e não sou a única nem a primeira), que os seres humanos têm necessidade de ritualizar as coisas. Isso pode ter por finalidade a mera contagem da passagem do tempo ou a marcação de um momento especial nas “
paredes da memória”, como disse Belchior¹.
O fato é que desde que o mundo é mundo, ritualizamos várias coisas, que variam de civilização para civilização, de cultura para cultura, como por exemplo, é celebrado entre os nipônicos a troca das estações do ano, entre os muçulmanos o nascimento do primogênito, entre os cristãos o nascimento, a morte e a ressurreição do Messias.
Observando secularmente, chegarmos nas ritualizações contemporâneas, onde damos ênfase às datas comemorativas comuns (feriados, eleições e afins) e datas comemorativas pessoais (como aniversários e bodas).
Ritualizamos também os momentos, como as formaturas com suas becas e cerimoniais, as passagens de fase e de ciclo como a aprovação em um concurso, os fins de ano e demais momentos a gostos pessoais, que podem ir de um simples reunião de negócios, um encontro amoroso ou até mesmo preparar um jantar para a família...
Enfim, entrei nessa divagação porque domingo, estudando um pouco de história do mobiliário e das casas, encontrei no livro do RYBCZYNSKY, referências sobre a transformação na concepção da casa, até a entendermos tal qual a entendemos hoje.
Segundo o autor, na Idade Média a casa era tida como mero abrigo e todas as atividades humanas eram um tanto quanto públicas. Embora muitas atividades tivessem um caráter de ritual coletivo bastante complexo (
inclusive a noite de núpcias), não havia um local específico dentro das moradias reservado para dormir, para comer, para fazer negócios, ou para tomar banho.
As casas eram um grande salão, onde os móveis desmontáveis eram dispostos conforme a necessidade do momento e a quantidade de convidados que havia.
A concepção de lar e aconchego só veio a ocorrer - em praticamente toda a Europa –, na Idade Moderna, por volta do século XVII - XVIII, e termos como privacidade, conforto e intimidade só fizeram sentido quando as pessoas se deram conta de suas necessidades; o Autor fala inclusive que o amadurecimento da casa enquanto lugar privado e íntimo foi conseqüência também do amadurecimento do homem enquanto indivíduo e da transformação no conceito de família, quase inexistente até então.
Em meio a tanta informação semi-nova (
é a terceira vez que leio o mesmo livro e ele sempre me dá uma perspectiva diferente das coisas), encontrei uma nota interessante sobre o ritual do banho, que tem relação especial com o idioma escandinavo:
Em várias partes da Europa, os nomes dos dias da semana têm sua origem em divindades pré cristãs, wednesday (quarta-feira em inglês) vem de Wodin, thursday (quinta-feira) vem de Thor e assim por diante. A única exceção ocorre nas línguas escandinavas, nas quais lordag (sábado) tem sua origem em uma atividade humana – é o “dia do banho” - , o que indica a importância que se dava a esta prática. Meu colega Norbert Schoenauer teve a simpatia de me chamar a atenção para este fato.
RYBCZYNSKI, Witold. 1999, p.58.²
Bom, agora deu para entender de onde saiu a velha máxima de que “banho, só aos sábados”.
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1 Em alusão a música Como Nossos Pais, imortalizada na voz de Elis Regina, no trecho em que diz: “na parede da memória / esta lembrança é o quadro que dói mais”.
2 RYBCZYNSKY, Witold. Casa, Pequena História de Uma Ideia. São Paulo, 1999. Ed. Record.
Em relação ao inicio, sobre os rituais, estes dias, na minha colação de grau eu discuti isso com a coordenadora do curso. Uma cerimonia e afins só para uma mulher vir e falar (a grosso modo) "você agora tá formado".
Tem gente que conheço que ainda segue a tradição dos banhos aos sábados, hehehe...
Beijo e se cuida...