Era um dia de muito pavor, medo, insegurança e solidão.
Isso pode parecer narração de melodrama ou filme de suspense, mas sabe aqueles dias em que todos os seus tormentos estão expostos à flor da pele, como se em cada poro houvesse uma gota de culpa?
Lembro com angústia do tempo (físico) em que passei sentada num banquinho de plástico, ansiosa, estalando os dedos, amarrando recordações.
Ninguém em casa, ninguém para conversar.
Andava atônita pelo apartamento silencioso, sentia o vento, o calor.
Aproximei-me da sacada, encostei junto ao parapeito de metal. Curvei-me o máximo que pude, até quase ficar sem equilíbrio, olhando para baixo.
Foi quando me vi cega, muda, surda, do outro lado, tremendo.
Respirava ofegante, calculava a distância do chão, imaginava o barulho da queda, do corpo estatelado em uma calçada fria.
Chorava copiosamente lamentando coisas que passaram, que não tinham mais conserto e que eu não entendia porque havia feito, nem porque aconteciam.
Perdida entre o stress do final de curso, quase no limite da entrega e com produção insuficiente, a pressão no trabalho, a adaptação em uma cidade nova e um coração burro, estava exatamente no olho do furacão, no meio de um tempestade pela qual eu, e somente eu, era interinamente responsável.
Acho que aos 26 anos de idade, morando "semi-sozinha", não era bem a atenção alheia o que eu queria chamar.
Era sim, um desespero silencioso friamente calculado. Tinha o gosto de fel e sangue que brotavam na boca do esôfago.
Foram os minutos mais longos e mais cinzas da minha vida... Sentia a pulsação, as batidas do coração trôpego, o ar entrando lentamente nos pulmões inflando.
E então, ela me chamou quando faltava pouco...
-Priscila, você está bem?
... foi como despertar de um transe.
A voz que me tirou a concentração não gritava, apenas falava gentilmente com um certo tom de preocupação, lembro bem.
Aos poucos fui retomando a postura, desfazendo lentamente a forma fetal na qual me encurvava.
Sentindo então uma vergonha profunda de mim mesma, da situação e de tudo o que eu havia pensado, virei para o lado e reconheci o semblante da vizinha a me fitar curioso.
Meu rosto inchado e transtornado, não tinha necessariamente um aspecto saudável quando respondi quase que num murmúrio:
- Honestamente, não!
Depois disso, chorei sem parar por mais algum tempo.
Talvez horas, talvez dias, com aquela terrível respiração entrecortada por soluços, até conseguir me acalmar.
Paulatinamente, as emoções foram se ajeitando, as lagrimas secando, a calma pairando leve e sorrateira, numa atmosfera melancólica.
Porém ainda que melancólica, era a calma de que eu precisava para recomeçar.
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Minha vizinha se chamava Alice, era assistente social, e eu tinha pouco contato com ela. Conversávamos às vezes “entre- sacadas” sobre coisas triviais, como sobre a vida alheia, o cotidiano, o trabalho, o comportamento humano, a filosofia e a política.
Mesmo que ela não saiba, serei eternamente grata.
(...) e meu pescoço, é claro, também!
Eu sempre acreditei em anjos, em Deus, e embora acredite também na vida, há momentos de total desamor e incredulidade. Nessas horas, como dizem, acredito também, e cada vez mais, na idéia do amar ao próximo quando ele menos merece.
Normalmente, é quando ele mais precisa.