Eu não tinha grandes preocupações quando me mudei para Jaraguá do Sul/SC; na verdade minha teimosia e vontade de mudar eram maiores que qualquer preocupação. No fundo acho que eu me mudei mesmo para ficar longe da família, dar um tempo da cidade de Curitiba e simplesmente viver outras experiências.
Não fiz planejamento, não calculei riscos e também não medi muito conseqüências. A única certeza que eu tinha era a de que eu precisava e muito, mudar de ares. Estava descontente com o trabalho, com o namorado e comigo mesma. As coisas não andavam muito, a faculdade capengando, sempre faltando “um pouquinho” para me formar. Aquela situação toda me irritava, me afogava, me deprimia e de qualquer maneira eu não conseguia fugir dela.
E então após alguns contatos por e-mail, começou a saga. Fui me mudando aos poucos, trazendo retalhos de mim e recompondo a colcha que no momento da decisão ficou rasgada pela metade.
Uma parte de mim se apaixonava pela nova cidade, pela quantidade de verde, pela ausência quase que total de violência a que eu estava acostumada, e pelo cheiro de serra do mar, tão diferentes da poluição pungente que existia (e que ainda existe) em Curitiba.
Mas uma outra parte sentia-se entediada, estranhava os hábitos e as pessoas, sentia falta de lugares e opções de lazer e cultura. Sentia falta dos amigos e das longas conversas nos domingos de sol cinzento, esparramados nos gramados do Largo da Ordem, na Feirinha Hippie.
Confesso que por um bom tempo a internet foi minha grande aliada, passando a representar não somente um meio de comunicação, mas uma forma de sobrevivência. Entre os amigos reais e virtuais (que também são reais), familiares e até mesmo professores (eu estava desenvolvendo meu TCC quando vim embora)conectados, nos momentos de solidão e saudade, era na grande rede que eu me refugiava.
Inicialmente eu viajava para a minha casa (casa da minha mãe), em quase todo o fim de semana, então percebi que nesse ritmo eu estaria sempre dividida entre lá e cá. Depois as viagens foram ficando cada vez mais espaçadas, comecei a criar pequenos laços locais e minha vida curitibana foi parecendo cada vez mais distante. Quando percebi, já havia me mudado quase que integralmente, restando míseras referências, que aos poucos vão se perdendo pelos vãos dos dedos, pelos
emails desativados, pelos becos escuros de uma memória sobrecarregada.
É claro que encaro isso como parte de um processo de desapego e desprendimento pouco cuidadoso e nada criterioso, perdi contatos valiosos por puro descuido, falta de tempo, descaso e principalmente por não saber administrar certas escolhas de maneira efetiva.
Assim, compreendi que por mais que os amigos sejam eternos, há que se ter sabedoria para selecionar com justiça, os que realmente fazem a diferença em nossas vidas.
Prova disso foi um fato ocorrido há pouco tempo, quando consegui restabelecer contato com um grande amigo, dos tempos do Curso Técnico em Telecomunicações, do Cefet/PR (ainda era CEFET). A alegria que senti foi gigantesca, quando ouvi um sorriso receptivo em sua voz após meses de silêncio total e absoluto. Às vezes a gente reclama da solidão e que os amigos não nos procuram, mas será que não somos nós quem deveríamos procurar também? Será que não deixamos as pessoas no vácuo, aguardando uma resposta por simplesmente não saber ao certo o que dizer a ela? Por que a gente tem a obrigação de sempre dizer alguma coisa, quando na verdade os amigos esperam um simples “saber como vai a vida”?
Talvez nesse mundo meio maluco em que a gente vive, "tendenciamos" a nos ilhar cada vez mais, e o contato humano tão precioso para o nosso desenvolvimento pessoal, vai se tornando cada vez mais ínfimo e fugaz.
__________________________________________________________________________
Bom, essa introdução é só para ilustrar o nascimento de um projeto incipiente, que ainda não tem a pretensão de ser um livro e que aos poucos vou contando aqui. O intuito não é jogar confetes sobre mim mesma, mas relatar uma experiência particular de mudança e contar um pouco sobre o universo dos “Amigos da Priscila”. É claro que dessa forma vou contar também um pouco do meu universo e impedir que algumas memórias se percam em meio a tantas informações, novidades, tecnologias e na maldita efemeridade do tempo!